10. CULTURA 27.2.13

1. OS MEDOS E ANGSTIAS DE FRANK SINATRA
2. O BOZO VOLTOU!
3. O PODER DA MAQUIAGEM
4. EM CARTAZ  SHOW - OS 40 ANOS DE UMA MSICA 
5. EM CARTAZ  LIVROS - ESCRITO NA AREIA
6. EM CARTAZ  CINEMA - DUSTIN HOFFMAN, DIRETOR
7. EM CARTAZ  EXPOSIO - ESTTICA DO VAZIO
8. EM CARTAZ  MSICA - A DAMA DA CANO
9. EM CARTAZ  AGENDA - MONDO TARANTINO/PARSIFAL/ARY BARROSO
10. ARTES VISUAIS - DAR MARGEM  LEITURA
11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - PERMANNCIAS MUTANTES

1. OS MEDOS E ANGSTIAS DE FRANK SINATRA
Nova biografia revela que ao cantor no bastava o sucesso profissional ou com as mulheres. Ele era tomado por um sentimento de abandono que o levou ao alcoolismo e a tentativas de suicdio
Aina Pinto

SEDUTOR - Apesar de valer-se inconscientemente de sua prpria fragilidade emocional para conquistar mulheres, Sinatra sofria com elas perto ou longe
 
Aos 53 anos, sado de crises existenciais e amores tumultuados, o cantor americano Frank Sinatra (1915-1998) decidiu gravar a balada My Way  e fez dela a sua cano assinatura. A letra fala de um homem envelhecido que reflete sobre as escolhas que fez na vida, exatamente como Sinatra se via naquele momento. Ele se reerguia de sucessivas quedas, a mais grave delas acontecida em fevereiro de 1951, aos 35 anos. Seus discos j no vendiam tanto, em razo do nascente rock n roll; seu desempenho no cinema era mediano. Numa tarde, ao passar pelos estdios Paramount, Sinatra v um grupo de garotas esperando ansiosas, no por ele, mas por outro astro. Ao se dar conta de que seu tempo passara, voltou para casa, colocou a cabea no forno e abriu o gs. Foi encontrado no cho por seu empresrio, Manie Sacks. Essa no foi a nica vez que a angstia levaria um dos maiores cantores de todos os tempos a tentar dar fim  sua vida, de acordo com a biografia Frank: A Voz (Companhia das Letras), que tem lanamento no Brasil em abril.
 Escrito pelo jornalista americano James Kaplan, o livro tem 800 pginas e vai do nascimento do cantor em 1915 ao ano de 1953, quando ele consegue dar a volta por cima e ganhar o Oscar de ator coadjuvante por A Um Passo da Eternidade.

INTIMIDADE - Essa foto indita, feita em 1965 por John Dominis, ficou fora de uma reportagem da revista
 
A biografia romanceada narra uma trajetria repleta de festas e amarguras.  o retrato de um homem que, ao cantar letras de amor e separao, se valia da melhor tcnica vocal, sempre amparada na emoo de sua experincia pessoal. Na viso de Kaplan, Sinatra no sabia ficar sozinho, mas era incapaz de manter um relacionamento estvel. Seduzia as mulheres com sua vulnerabilidade, mas no se sentia bem consigo mesmo  teve problemas desde a infncia com cicatrizes que adquiriu no parto. Durante seu nascimento a frceps, o mdico acidentalmente cortou o lado esquerdo de seu rosto, deixando-o com uma marca profunda da boca  orelha que foi mais tarde amenizada quando j podia pagar por cirurgias plsticas. Logo que comeou a fazer sucesso e assistia envaidecido s fs desmaiarem na plateia, Sinatra era nada mais que um rapaz de 20 e poucos anos, estatura mdia, magricelo e com o rosto coberto por marcas de acne.
 
A voz quente e os olhos azuis, no entanto, agiam a seu favor. Havia tambm algo mais, que s as amantes conheciam. O autor lembra o comentrio indiscreto de Ava Gardner, sua segunda mulher, sobre os dotes fsicos do marido: Eram apenas cinco quilos de Sinatra e mais outros 50 quilos.

BOM HUMOR - Famoso pelas farras e pela presena de esprito, Sinatra  visto em outra foto indita do acervo da revista Life, tambm de 1965. Ele caiu da cadeira aps ouvir uma piada do comediante Joe E. Lewis. Bon vivant e generoso com os amigos, o cantor ficava nervoso e tinha medo de esquecer as letras das msicas antes de subir ao palco
 
A convivncia com Ava no foi das melhores. Nesse perodo, ele tentou mais uma vez o suicdio. O casal vivia entre amantes, bebidas e remdios para dormir, o que refletia na vida profissional. Valendo-se de sua posio de starlet, Ava implorou aos chefes da Paramount para que ele tivesse um papel em A Um Passo da Eternidade. Disse que Sinatra estava se sentindo abandonado pelo pblico. As noitadas serviam, ento, para afogar as mgoas. Depois dos shows, ainda cheio de adrenalina, Sinatra saa para embalos regados a usque, jogatina e muitas mulheres. Na verdade, o sentimento constante de vazio existencial no vinha somente dos fracassos na carreira e com as mulheres  esses  que eram consequncia de sua sensao de abandono e fragilidade emocional. Tanto  assim que j em fevereiro de 1947, estava em Havana, em um quarto com 12 garotas de programa e incontveis litros de lcool, tudo bancado pela mfia italiana, com aval de Lucky Luciano. Por isso, no foi encontrar Nancy, a sua mulher da poca, em Acapulco. Ao chegar, descobriu que ela tinha feito mais um aborto. Era uma vingana pelas suas incontveis traies. Essas tragdias, obviamente, refletiam na sua carreira e so o motor da biografia.


2. O BOZO VOLTOU!
O palhao de maior sucesso nos anos 1980 ganha novo programa no SBT - A estratgia  conquistar o pblico infantil e resgatar adultos saudosistas
Aina Pinto

SBADO ANIMADO - Programa deu ao SBT o segundo lugar no Ibope
 
Como se tornou habitual na forma com que o apresentador Silvio Santos decide a grade de sua emissora  a de reinventor de programas de sucesso do passado , Bozo, o palhao de cabelos vermelhos e expresso de quem levou um choque eltrico, voltou de surpresa  programao do SBT no sbado 16, aps um hiato de 20 anos. Ao longo de quase quatro horas, a partir das 9 horas, a atrao teve mdia de quatro pontos no Ibope, com picos de seis, segundo dados da emissora. Com mgicas, gincanas e piadas em torno das histrias bblicas de Ado e Eva e de Caim e Abel, o clown garantiu o segundo lugar no Ibope, em um empate tcnico com a Record por diferena de dcimos.
 
A volta do palhao que foi sucesso nos anos 1980 e de novelas como Carrossel e Chiquititas (em junho) demonstra a estratgia do SBT de no apenas investir em atraes para o pblico infantil, mas de garantir tambm audincia de pais saudosistas do que viam na juventude. Diverso em famlia, segundo a frmula criada por Walt Disney no incio do sculo passado. Dessa forma, Bozo segue o mesmo formato do programa que foi exibido na emissora entre 1981 e 1991, com brincadeiras entre crianas alternadas com desenhos animados no clima circense de baguna geral. At as msicas de abertura e encerramento continuam as mesmas: juntamente com o clown, voltaram Salci Fufu, Papai Papudo e Vov Mafalda. Por contrato, as identidades dos atores so mantidas em segredo.

No passado, Bozo teve diversos intrpretes, sendo Wanderley Tribeck e Arlindo Barreto os mais conhecidos. Salci Fufu era Pedro de Lara e a Vov com um morango no nariz era Valentino Guzzo. Sobre o atual palhao, a nica informao dada pela emissora  que o ator j teve experincia circense. O comando do picadeiro eletrnico deve seguir  risca regras impostas pela empresa Larry Harmon Corporation, um dos primeiros intrpretes do palhao criado em 1946 pelo americano Alan Livingston. Entre as exigncias esto o sigilo sobre a identidade dos atores, a constante amabilidade do animador com a crianada e o carter educacional dos momentos cmicos.


3. O PODER DA MAQUIAGEM
Cada vez mais sofisticada, a maquiagem torna mais convincente cinebiografias e filmes de fantasia, revoluciona o cinema e passa a ser uma das categorias mais disputadas no Oscar 
Ivan Claudio 

METAMORFOSE - Anthony Hopkins e Alfred Hitchcock: por meio de prteses, o ator ficou bastante parecido com o cineasta
 
Para viver uma figura histrica como Napoleo Bonaparte, um ator no precisava mais que uma franja  moda do imperador francs  e o seu chapu pontiagudo, claro. Isso  coisa do passado. Simultaneamente  revoluo dos efeitos digitais, hoje tarimbadas equipes de maquiadores transformam a aparncia de um astro numa cpia exata do personagem retratado. Vale tudo: perucas, apliques, lentes de contato e prteses faciais que se ajustam com perfeio ao rosto do intrprete. A metamorfose  to fantstica que o Oscar de melhor maquiagem se tornou um momento esperado. E dos mais competitivos: para se chegar aos trs concorrentes deste ano  Hitchcock, O Hobbit e Os Miserveis  foram selecionados previamente sete ttulos.
 
O avano nessa rea no responde apenas  verossimilhana, pr-requisito das cinebiografias. A caracterizao vem tendo grandes resultados tambm na rea oposta, a dos filmes fantsticos  e o melhor exemplo  O Hobbit, de Peter Jackson. Na criao dos 13 anes da histria, lanou-se mo de prteses de silicone para avolumar testas e narizes. Os desgrenhados cabelos e as barbas que do o toque bizarro aos personagens foram feitos de pelos de bois iaques, do Himalaia. Segundo o maquiador Peter King, o visual ficava excelente em 3D. No existe nenhum ator do filme que no use aplique, diz o maquiador, que criou seis perucas e oito barbas para cada ano  e isso aps 30 sesses de teste.

 nas cinebiografias, no entanto, que a maquiagem tem ganhos mais visveis por usar como parmetro pessoas reais - para no dizer mitos da histria e da arte. Na moldagem do rosto do cineasta Alfred Hitchcock, vivido por Anthony Hopkins, at a ligeira toro de seu lbio inferior foi reproduzida. Em suas pesquisas, o ator descobriu que vinha da o sotaque caracterstico e meio debochado do cineasta. Como faz ginstica e no queria engordar, Hopkins recebeu uma prtese apelidada de ferradura de cavalo para ficar com o pescoo adiposo: O segredo era usar o silicone de modo a no prejudicar a expressividade. O medo de ter o rosto engessado ou de que o make up chame muito a ateno faz com que grandes intrpretes tenham ojeriza pelo chamado visagismo. Daniel Day-Lewis, por exemplo, disse que sua caracterizao como Lincoln foi perfeita porque nem se nota que houve um meticuloso trabalho para tornar-lhe a sobrancelha mais espessa, as rugas na fronte mais pronunciadas e a orelha mais arredondada. Ironia: talvez, por isso, o filme no tenha sido selecionado para a disputa final.


4. EM CARTAZ  SHOW - OS 40 ANOS DE UMA MSICA 
por Ivan Claudio

Lanada em 1972 no lbum Honky Chteau, a msica Rocket Man, de Elton John, foi hit daquele ano e nunca  esquecida em seus shows.  ela que d nome  turn do artista, em cartaz em So Paulo na quinta-feira 27, seguindo depois para Porto Alegre, Braslia e Belo Horizonte. Inspirada no conto homnimo do livro Uma Sombra Passou por Aqui, de Ray Bradbury, a cano fala de um astronauta que tem saudade da famlia durante uma viagem a Marte. Prestes a completar 68 anos de idade (dia 25 de maro), Elton John j vendeu mais de 60 milhes de discos e se mantm influente como o msico que devolveu o piano ao rock. Lanada em novembro do ano passado, em apenas dois meses 40 Anos de Rocket Man ficou entre as 25 turns mais rentveis de 2012, com renda superior a US$ 32 milhes.
 
+5 discos de Elton John

EMPTY SKY 
J no primeiro lbum, de 1969, Elton John emplacou um clssico: Skyline Pigeon
 
ELTON JOHN 
O segundo disco do cantor tem na abertura a msica Your Song, ainda hoje a sua cano mais famosa
 
GOOD-BYE YELLOW BRICK ROAD (FOTO) 
Foi o lbum mais vendido de 1973. Traz Candle in the Wind, originalmente uma homenagem a Marilyn Monroe
 
CAPTAIN FANTASTIC AND THE BROWN DIRT COWBOY 
 a autobiografia musical de Elton John (Captain Fantastic) e do letrista e parceiro Bernie Taupin (Dirt Cowboy)
 
ICE ON FIRE 
Traz a voz de George Michael em duas faixas: Nikita e Wrap Her Up


5. EM CARTAZ  LIVROS - ESCRITO NA AREIA
por Ivan Claudio

No se trata de uma leitura de vero, mas A Vida Descalo (Cosac Naify), do escritor argentino Alan Pauls, se beneficia de seu lanamento nessa poca do ano. Combinando ensaio com memria, Pauls examina o ritual de ir  praia a partir de sua experincia de garoto. Nesse espao imberbe e liso, ele descobriu a literatura de Julio Cortzar e outros romancistas. E, para o bem dela, tornou-se o grande autor que .


6. EM CARTAZ  CINEMA - DUSTIN HOFFMAN, DIRETOR 
por Ivan Claudio
Indiscutivelmente um dos melhores atores de Hollywood, Dustin Hoffman vinha fazendo apenas dublagens em filmes de animao. Agora ele estreia como diretor aos 76 anos com O Quarteto (em cartaz na sexta-feira 2), sobre um grupo de cantores de pera aposentados que precisam voltar aos palcos para pagar as contas do asilo. O filme estreou em apenas duas salas nos EUA e fez a modestssima bilheteria de US$ 47 mil. Na semana seguinte, teve um aumento de 500% no faturamento e, com menos de um ms, chegou a mais de US$ 31 milhes ao redor do mundo.


7. EM CARTAZ  EXPOSIO - ESTTICA DO VAZIO
por Ivan Claudio
A recorrncia de um mesmo tema no trabalho de artistas contemporneos brasileiros norteou a curadoria da exposio Lugar Nenhum (Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, a partir de 2/3). Trata-se da representao de espaos vazios na pintura e na fotografia, com propsitos variando de artista para artista. Foram selecionados 56 trabalhos dos pintores Marina Rheingantz, Ana Prata e Rodrigo Andrade e dos fotgrafos Celina Yamauchi, Lina Kim, Luiza Baldan, Rubens Mano e Sofia Borges. Todos eles,  sua maneira, exploram a dicotomia ausncia/presena que a representao desses ambientes sugere.


8. EM CARTAZ  MSICA - A DAMA DA CANO
por Ivan Claudio
Prevista para comemorar os 70 anos da cantora Nana Caymmi, a caixa A Dama da Cano, com 18 CDs, chega s lojas com dois anos de atraso. Mas cumpre bem a homenagem: alm de reeditar com tima qualidade sonora os seus discos lanados entre 1965 e 2000, coloca pela primeira vez no formato de CD o lbum Nana, de 1973, gravado na Argentina, e uma coletnea dupla de 41 canes registradas fora de seus trabalhos oficiais. Diversas vezes anunciada, a sua despedida dos palcos tambm foi adiada. Agora  o pblico quem comemora.


9. EM CARTAZ  AGENDA - MONDO TARANTINO/PARSIFAL/ARY BARROSO
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

MONDO TARANTINO
 (CCBB e Cinusp, So Paulo, at 17/3)
 Mostra com os sete longas dirigidos por Quentin Tarantino, filmes que o influenciaram e aqueles escritos, produzidos e interpretados por ele
 
PARSIFAL
 (Cinemas UCI, 2/3, 14h) 
O tenor alemo Jonas Kaufmann interpreta o heri wagneriano nessa montagem do Metropolitan Opera, de Nova York. A regncia  de Danieli Gatti
 
ARY BARROSO
 (Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, at 31/3)
 Estreando como autor, Diogo Villela dirige e atua no espetculo Ary Barroso  Do Princpio ao Fim, sobre o criador de Aquarela do Brasil


10. ARTES VISUAIS - DAR MARGEM  LEITURA
Edith Derdyk expe a sua traduo visual para o Gnesis, texto inaugural da civilizao ocidental
por Paula Alzugaray

ARCADA  EDITH DERDYK/ Galeria Mario Schenberg, Funarte, SP/ at 2/4

FATO POTICO - Instalao "Arcada" interpreta texto antigo com 80 mil metros de linha
 
Em trs dcadas de trabalho, Edith Derdyk se dedica a estudar os fluxos entre palavra e imagem. Em sua obra mais recente, que nomeia a exposio Arcada, contemplada pelo Prmio Funarte de Arte Contempornea 2012, ela enfatiza a relao entre o verbo e a luz que  apresentada no Gnesis, primeiro livro da Bblia. No entanto, em vez de esclarecer, o trabalho de Edith se empenha em obstruir, tornar complexa e obscurecer a informao.
 
A narrativa bblica  o momento em que a palavra deixa de servir unicamente a uma escrita prtica e passa a ser um fato potico, afirma a artista. Quanto monto uma exposio, levo sempre grampo, madeira e linha. Mas estou interessada em saber quando esses materiais viram um fato potico, compara ela.
 
Questo prtica: Arcada  uma instalao realizada com 80 mil metros de linha preta, que sustentam uma tbua de madeira a 20 centmetros do cho e que pesa algumas toneladas. O trabalho teve como ponto de partida a traduo que Haroldo de Campos realizou do Gnesis, publicada no livro BereShith  A Cena de Origem, de 1993. Fato potico: a nvoa cinzenta desenhada pelos fios no espao da instalao  uma regio impenetrvel, de uma densidade que remete  intransponibilidade do texto bblico.

ARQUEOLOGIA - "Tbula"  feita de sobreposies de pginas da "Bblia"
 
A Bblia  o texto mais traduzido e interpretado do mundo, segundo o crtico literrio Harold Bloom, continua ela, que, com esse trabalho, contribui com mais uma traduo da obra, porm, uma traduo visual. Escrito originalmente em hebreu arcaico  o aramaico , o texto tem, como afirma a artista e pesquisadora, uma tessitura de complexidade superior a toda e qualquer obra potica produzida posteriormente pelas lnguas fonticas que nasceram do aramaico.  dessa complexidade e mistrio que a instalao de Edith Derdyk trata.
 
Se nos versos bblicos traduzidos por Campos o verbo est associado  luz, nos trabalhos de Edith ocorre o inverso. Na instalao Tbula, que completa a mostra, ocorre o que a artista define como uma arqueologia ao contrrio. Tbula  composta por 120 impresses a jato de tinta mineral, realizadas a partir da sobreposio de fotografias tiradas da primeira pgina do Gnesis  extradas de Bblias compradas de sebos de todo o mundo, em diversas lnguas. O resultado  um texto impenetrvel aos olhos e  conscincia, que abre, sim, outras margens  leitura.


11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - PERMANNCIAS MUTANTES
MERIDIANAS - GERGIA KyRiAKAKIS/ Galeria Flvio de Carvalho, Funarte, SP/ at 2/4
Nina Gazire

A mostra Meridianas de Gergia Kyriakakis, contemplada pelo prmio Funarte de Arte Contempornea de 2012,  uma excelente oportunidade para ver de perto o percurso de um artista em torno de suas inquietaes e provocaes pessoais. Vislumbrar tal processo de maneira panormica  algo raro, dado que, na maioria das vezes, experimentamos a prtica de um artista separadamente de seu contexto maior, seja por contingncias mercadolgicas, seja por inconstncias no percurso criativo ou por dificuldades de acesso a condies expositivas ideais para o trabalho.
 
A exposio em questo traz seis obras que compreendem a pesquisa de Gergia, realizadas entre 2011 e 2013, em torno de temas como a instabilidade e a fragilidade como potncias para a criao. Na instalao indita  que nomeia a exposio  est o resultado provisrio da pesquisa interminvel da artista sobre as vibraes secretas dos objetos demovidos de suas funes convencionais. A obra  composta por duas cadeiras distanciadas e interligadas apenas por um monte contnuo de p de metal carbonizado que parece flutuar.
 
O p de metal carbonizado ser presena comum em outras obras na exposio, na qual o mobilirio tambm aparece como signo da instabilidade. Por exemplo, a ao escultrica Coordenadas, de 2011, em que um grupo de mesas desafia a gravidade ao permanecerem suspensas no ar, e em diferentes posies, equilibradas delicadamente pelo p de metal encontrado sob elas. A relao entre o vertical e o horizontal, que pode tambm ser pensada como nivelamento e lastro, contribui para as operaes de desajuste das peas. Acho que o dilogo entre os trabalhos se d pelas relaes e aproximaes materiais, pela natureza dos objetos, mas, sobretudo, pela situao de cada trabalho. No h nada ali que esteja totalmente equilibrado ou desequilibrado, h sempre um ndice de estabilidade, mesmo que frgil, explica Gergia. Nina Gazire

